MANAUS NO CENTRO DO FLUXO MIGRATÓRIO VENEZUELANO: UM ALERTA QUE PRECISA SER OUVIDO

Manaus tem uma marca que é nossa, e que o mundo reconhece quando olha para a Amazônia. Aqui, a gente acolhe. E acolher, na gestão pública, significa organizar, integrar e garantir que o serviço funcione na ponta, com dignidade, método e humanidade.

Escrevo este artigo num momento em que a Venezuela volta a ocupar o centro do noticiário internacional, com aumento de incertezas e tensões políticas e externas. Em cenários assim, o fluxo migratório tende a ficar mais sensível, e cidades que já recebem essa população precisam se planejar para continuar entregando um atendimento organizado e eficiente.

Em Manaus, a dimensão desse cenário é conhecida, medida e acompanhada. Hoje, são cerca de 45,1 mil refugiados e migrantes inseridos no Cadastro Único, sendo aproximadamente 42,7 mil venezuelanos. Há ainda cerca de 800 haitianos, quase 600 peruanos e pouco mais de mil pessoas de outras nacionalidades. Os dados são do levantamento da Semasc, com base no Cadastro Único de novembro de 2025.

Esse retrato não é para alimentar preconceito, nem para virar manchete vazia. É para orientar decisões e fortalecer o que já vem funcionando. E Manaus tem mostrado capacidade de resposta porque faz o básico bem feito, com rede estruturada e com a assistência social operando de verdade.

É importante também entender a rota. Boa Vista, em Roraima, segue sendo a porta de entrada e concentra a primeira resposta humanitária com a Operação Acolhida, que organiza acolhimento e interiorização. Só que a realidade é que muita gente segue viagem. E Manaus, pela posição geográfica e pela estrutura urbana, acaba recebendo parte relevante desse deslocamento, que não termina na fronteira.

Quando a gente olha para o perfil dessas famílias, fica ainda mais claro por que essa política precisa ser contínua. A maioria dos inscritos é formada por mulheres, cerca de 27 mil, o que diz muito sobre o tipo de demanda que chega primeiro aos serviços e sobre a centralidade das mães e responsáveis familiares na busca por atendimento. Além disso, há muitas crianças e adolescentes. Só na faixa de 7 a 11 anos, são cerca de 6,8 mil. Entre 4 e 6 anos, cerca de 2,6 mil. Entre 14 e 17 anos, perto de 3,8 mil.

Isso significa que assistência social, aqui, não é teoria. É proteção social na prática. É cuidar de crianças, orientar adolescentes, acompanhar famílias, acolher e encaminhar.

E a renda mostra o tamanho da vulnerabilidade. Cerca de 71 por cento desse público está na faixa de pobreza. É a evidência mais direta de que a demanda não é pontual, ela é permanente. Por isso, o que sustenta a dignidade não é um único atendimento, é uma rede inteira funcionando com constância.

Nesse cenário, Manaus tem conseguido organizar acesso e garantir atendimento com responsabilidade. Os registros indicam cerca de 26,3 mil pessoas vinculadas ao Bolsa Família e aproximadamente 2 mil beneficiários do BPC, o que reforça o papel de proteção social para quem mais precisa. E, ao mesmo tempo, mostra que o desafio não se limita a um cadastro ou a um número.

O coração dessa resposta está no trabalho cotidiano da Prefeitura de Manaus e da rede socioassistencial. É o atendimento nos CRAS e nos CREAS, com orientação, encaminhamento e acompanhamento. É a segurança alimentar, com iniciativas como o Prato do Povo. É o suporte em momentos de vulnerabilidade extrema, como o SOS Funeral. É a articulação com saúde e educação, porque o básico precisa acontecer para que a integração seja real. E é também a necessidade de encaminhamentos no campo da habitação, quando a vulnerabilidade aperta e exige resposta do poder público.

É por isso que o alerta não é um lamento. É uma mensagem de maturidade institucional. Manaus faz, entrega e acolhe. O que nós defendemos é cooperação e planejamento, para que a cidade siga fazendo bem feito, sem sobrecarga e sem improviso, com capacidade de ampliar respostas quando necessário.

A migração é um fenômeno humanitário e federativo. E, quando a Venezuela volta a atravessar um período de instabilidade, o Brasil precisa reforçar a estratégia de proteção e integração para além do ponto de entrada. Manaus está pronta para cooperar, compartilhar experiência e seguir sendo referência em acolhimento com organização.

Acolher é um dever humanitário. Planejar é um dever do Estado. Olhar para Manaus com responsabilidade é uma necessidade nacional.

Artigo de autoria do dep federal Saullo Vianna pelo Amazonas (UP).*

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