PIRATAS USAM DRONES E ATÉ METRALHADORAS

O Sindicato das Empresas de Navegação Fluvial do Amazonas (Sindarma) denuncia a ocorrência de assaltos diários a embarcações que transportam de grãos a combustíveis no Amazonas. Os ‘piratas’, diz a entidade, têm usado de drones a metralhadoras para cometer os crimes. No último domingo (18), um ataque de piratas a um barco da Companhia de Navegação da Amazônia (CNA) resultou no sequestro temporário do comandante, que depois foi liberado, e na morte de um dos assaltantes.

Presidente da entidade, Galdino Alencar afirmou que, apesar do número de ataques exitosos de piratas às embarcações ter diminuído em 2025, as tentativas de roubo continuam gerando prejuízos às empresas. “Essa redução no sucesso das ações criminosas não reflete uma diminuição nas tentativas. Pelo contrário, há registros quase diários de tentativas de assalto, abordagens hostis e, em diversos casos, trocas de tiros nos rios em todo o Estado”, disse.

CENÁRIO

Entre outubro de 2020 a dezembro de 2023, os piratas de rios roubaram mais de 7,7 milhões de litros de combustíveis, totalizando R$ 48 milhões em prejuízos provocados em ataques contra embarcações das transportadoras amazonenses. Nesse período houve um aumento de 105,6% nos roubos em comparação com os anos anteriores e o período com maior número de ocorrências foi em 2022, com oito grandes assaltos e 3 milhões de litros levados pelas quadrilhas para serem comercializados ilegalmente.

Segundo o sindicato, em 2023, quando as transportadoras, por iniciativa própria, contrataram escoltas privadas armadas para fazer a segurança e acompanhar os comboios de balsas, a quantidade de combustível roubado caiu quase pela metade. O Sindicato afirma que, em 2025, houve novamente uma redução no número de roubos em relação ao ano anterior, e que os dados detalhados serão divulgados em breve.

“As empresas de navegação foram obrigadas a ampliar de forma significativa os investimentos em segurança diante do aumento da violência nos rios. Esses custos variam conforme o tempo de viagem e a época do ano, já que, no período de seca, o percurso se torna mais longo e mais vulnerável. Além das escoltas armadas, que por si só já elevam consideravelmente o custo das operações”, ressalta o presidente.

Entre as medidas consideradas indispensáveis para reduzir riscos, preservar a vida dos tripulantes e manter a continuidade do abastecimento estão novos sistemas de comunicação e monitoramento on-line, treinamento especializado, além de apoio e assistência aos tripulantes.

Rotas de ataque

De acordo com o Sindarma, toda a região amazônica apresenta risco de ataques de piratas. Mas em alguns trechos, como os rios Madeira, Amazonas e Solimões, os ataques são mais frequentes. No Rio Amazonas, especialmente no trecho entre Itacoatiara e a fronteira com o Pará, há também, segundo o sindicato, registros de apreensões significativas de drogas, além da pirataria.

Galdino Alencar afirmou que até próximo da capital as tentativas estão sendo registradas. “Áreas próximas a Manaus passaram a apresentar um aumento no número de tentativas de assalto nos últimos períodos.”

Quanto à escolha de embarcações para atacar, o principal alvo dos grupos criminosos são as transportadoras de combustível, por se tratar de um produto de alto valor, com grande demanda e fácil escoamento para outros segmentos do mercado ilegal.

Com isso, surgem algumas preocupações para o setor: prejuízos financeiros e o risco de desabastecimento de comunidades do interior, que podem ficar sem serviços essenciais, como fornecimento de energia elétrica e funcionamento de hospitais. Há também significativos danos ambientais decorrentes do transporte inadequado do material roubado.

“As empresas do setor seguem rigorosamente normas técnicas, ambientais e de fiscalização, utilizando balsas de casco duplo e cumprindo protocolos rigorosos para minimizar qualquer risco ambiental. Já as quadrilhas criminosas, ao roubarem as cargas, transportam gasolina, diesel e outros produtos inflamáveis em embarcações e tanques totalmente inadequados, sem qualquer critério de segurança, elevando de forma significativa o risco de vazamentos, incêndios e contaminação dos rios”, explicou o presidente do sindicato das embarcações.

O assalto a uma embarcação no domingo (18), que terminou com uma pessoa morta, é rotina diária de transportadores de grãos e combustíveis, diz o sindicato das empresas no Amazonas. Entidade diz que criminosos usam de drones a metralhadoras.

ALTAMENTE ARMADOS

Outro fator de risco são os confrontos no rio, que registram casos de tripulantes espancados e feitos reféns. O Sindarma informou que a maioria das quadrilhas usa armamento pesado, como metralhadoras e até drones, o que eleva significativamente o grau de ameaça e o risco.

Um dos exemplos mais recentes foi o ataque realizado por piratas no último domingo (18). O caso chamou a atenção do presidente da Comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), deputado Comandante Dan (Podemos), que classificou, em matéria divulgada pela assembleia, a ação como “corriqueira” e com números defasados pela dificuldade de ação da polícia.

“Existe uma enorme cifra negra (número de infrações penais desconhecidas oficialmente) quando examinamos a questão da pirataria. Os ataques se dão no meio dos rios, a maioria das vezes em locais sem acesso fácil à internet ou sem a presença de um aparelho policial que possa agir de imediato”.

O deputado avaliou que há um aumento na sofisticação dos criminosos, que também se envolvem em tráfico de drogas. “Viajei por toda a calha do Solimões de barco, parando em todos os municípios e em quatro dezenas de comunidades ribeirinhas. Presenciamos tiroteios em frente às cidades, na disputa de grupos rivais de piratas pela carga roubada. Nas comunidades, vi gente fortemente armada circulando livremente e impondo medo à população. A situação está fora de controle”, afirmou.

Piratas já se alinham a facções

Esse domínio das organizações criminosas é representado no levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que aponta que facções criminosas atuam em pelo menos 25 dos 62 municípios do Amazonas. O Comando Vermelho (CV) domina em 19 cidades. O Primeiro Comando da Capital (PCC) aparece restrito ao município de Coari e os Piratas do Solimões em Barcelos, Codajás e Tefé.

Para alguns especialistas, as organizações criminosas dominam não apenas o tráfico, mas parcerias em atividades como garimpo, extração de madeiras e até os assaltos às embarcações, como forma de facilitar o domínio.

O pesquisador do CNPq e professor na Universidade Federal da Paraíba, Marcos Alan Ferreira, disse que há uma correlação entre as atividades ilegais de tráfico e piratas do rio. “Hoje, as rotas fluviais são extremamente importantes, especialmente para o Comando Vermelho e o PCC, inclusive com cooperação dessas facções com piratas locais. Esses grupos contratam os piratas justamente para roubar drogas do próprio Comando Vermelho ou de organizações menores, como atacadistas que vêm do Peru. Com isso, ganham em facilidade logística, pois, em vez de trazer a droga da Colômbia até Tefé ou Coari, utilizam piratas para roubá-la no meio do caminho, o que reduz significativamente os custos”, informou o especialista.

Ele destacou que, para ter um controle maior dos rios do estado, é preciso que os investimentos aumentem. “Tem que se incrementar investimentos como o da base Arpão e Coari, em que várias organizações atuam em cooperação para lidar com esses roubos e proteção das comunidades ribeirinhas, e o aumento de investimento em tecnologia”, ressaltou Ferreira.

 

 

 

 

FONTE: A CRÍTICA

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