Feche os olhos e resgate a cena: o som metálico de uma lata de leite condensado sendo aberto na mesa da cozinha e, logo em seguida, o estalo perfeitamente crocante de uma colherada farta de farinha de mandioca que se mistura ao doce cremoso. Para quase todo amazonense, essa sobremesa rústica e improvisada é o gosto exato da infância. O que por décadas foi um ‘pecado gastronômico’ restrito às quintas do Norte, porém, acaba por romper as fronteiras da nostalgia para coroar o mercado gourmet. Pelas mãos do empreendedorismo inovador, o hábito raiz virou o requintado brigadeiro de farinha uarini, provando que a identidade cultural e a memória afetiva são os materiais-primas mais valiosos — e lucrativos — para um negócio de sucesso.
Essa transição do paladar afetivo para as vitrines gourmet procedimento técnico e ousadia. Longe de ser uma mera adaptação, o brigadeiro de farinha uarini foi estrategicamente redesenhado para surpreender. A receita inovadora nasceu da cocriação entre o empreendedor Jhonny Brito, de 40 anos, e uma de suas clientes, Lorraine Mendes, então estudante de gastronomia.
Foi dela o estalo de moldar uma massa tradicional boleada e envelopá-la com a textura esférica da farinha uarini, substituindo o granulado convencional. O resultado foi um produto sofisticado que preserva a essência daquela raspagem de lata da infância.
O grande segredo dessa alquimia não é o contraste das texturas. A farinha legítima uarini — popularmente batizada de ‘farinha ovinha’ — confere uma crocância imbatível e um nível de acidez que quebram com precisão o dulçor acentuado do leite condensado. O sucesso comercial foi imediato.
Ao equilibrar a rusticidade do interior com o requinte da doceria fina, o doce passou a despertar um impacto duplo no mercado regional: ao mesmo tempo em que choca positivamente os turistas de fora, sentidos com a sofisticação da mistura, ele reconecta os manauaras com suas raízes mais profundas.
Mistura de rolos
A conversa desse sucesso é sentido diariamente pelo criador da iguaria. “O amazonense vem e é transportado direto para a infância. Já o turista experimenta algo completamente inédito, que quebra o doce do brigadeiro com a crocância da nossa terra”, orgulha-se Jhonny Brito.
Para ele, ver a ocorrência dos clientes vai além das metas de venda; trata-se de um resgate de dignidade cultural em formato de doce.
Essa conexão profunda com o passado ignora barreiras urbanas e alcança a ancestralidade dos povos originários. Uma curiosidade em provar uma iguaria gourmet levou a indígena da etnia Tikuna, Maria Valda Feitosa dos Santos, até o balcão de Jhonny, resultando em um reencontro imediato com suas origens.
“Eu tinha curiosidade de provar e, quando experimentei, me senti de volta à infância, quando a gente comia o leite condensado com farinha”, emociona-se. Para Valda, o doce reverencia um pilar sagrado de sua cultura, onde a mandioca é soberana.
“Nós, como indígenas, valorizamos o produto feito manualmente, como essa farinha. Ela é a base de tudo: fazemos o bolinho e, quando não há o almoço, preparamos o chibé. A gente toma e fica alimentado, forte como se tivesse comido um peixe”, explica, sintetizando o valor vital do insumo.
Essa estratégia de vestir a rusticidade territorial com as técnicas da confeitaria fina reflete a maior tendência global do mercado de alimentos atual: a valorização da gastronomia de origem. Mais do que um modismo, coroar o ingrediente nativo como o grande protagonista do prato é uma engrenagem poderosa de agregação de valor econômico e cultural. É sob esse conceito de inovação e respeito às raízes que o cenário da nossa história ganha forma, saindo das panelas caseiras para ocupar um dos maiores monumentos da história manauara.
Impacto
Dados do Sebrae Amazonas revelam o impacto social dessa engrenagem: estima-se que mais de 60 mil famílias no estado dependam economicamente da fabricação da farinha de mandioca. Para mitigar os gargalos logísticos e a distribuição de lucros, o Idam intensifica as ações de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater). Por meio de suas 75 Unidades Locais e Postos Avançados distribuídos por todos os municípios, o órgão introduz novas tecnologias e boas práticas de desenvolvimento rural sustentável. Mais do que ampliar o conhecimento técnico, a atuação governamental com foco na regularização documental dos trabalhadores — por meio da emissão do Cartão do Produtor Primário (CPP), do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e do Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF) —, abrindo portas para o crédito rural e para mercados institucionais, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
Da bancada ao mercado: O Selo Científico
A relevância socioeconômica e cultural demonstrada no modelo de negócios de Jhonny Brito encontra eco e validação em um robusto estudo acadêmico recente da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). A dissertação de mestrado de Emilly Felipe de L. e Lima, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia para Recursos Amazônicos (PPGCTRA), investigou a sustentabilidade da mandiocultura no estado. O diagnóstico científico indica que a farinha de mandioca constitui uma atividade de centralidade indiscutível na Amazônia, funcionando como o eixo estruturante da organização social e econômica das comunidades tradicionais.
O estudo, fundamentado na perspectiva consagrada do Triple Bottom Line (que cruza as dimensões ambiental, social e econômica) e balizado pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030, aponta que a atividade é diretamente responsável pela segurança alimentar e geração de renda de milhares de famílias. No entanto, os dados coletados pela universidade expõem uma ferida histórica: a movimentação no estado ainda sofre com diversas interferências de intermediários, o que reduz drasticamente as margens de lucro dos pequenos produtores e desmotiva a continuidade da atividade no campo.
Conforme indicadores do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (IDAM), uma atividade envolve mais de 67 mil agricultores familiares e movimenta uma área plantada superior a 83 mil hectares. Diante desse cenário complexo de fragilidade consumidora logística e organizacional mapeado pela UFAM, modelos de negócios que integram a produção familiar diretamente ao mercado urbano — eliminando a figura do atravessador — deixam de ser meras iniciativas comerciais para se tornarem soluções estratégicas de alta relevância socioeconômica.
A engrenagem criada por Jhonny Brito materializa exatamente a recomendação da academia: agregar valor ao insumo regional, garantir a justa distribuição de renda na comunidade de origem e promover o desenvolvimento territorial sustentável através da preservação dos saberes ancestrais.
A consagração do ‘Caviar Amazônico’
A consagração definitiva desse ingrediente essencial que cruza a história de Jhonny Brito veio por vias legais. A farinha de Uarini foi oficialmente declarada Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Estado do Amazonas, por meio da Lei nº 6.794/24. Muito além de um título simbólico, essa chancela jurídica reflete o gigantismo de um setor primário em expansão. Conforme dados do Relatório de Atividades do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (IDAM), somente em 2025, o estado atingiu a expressiva marca de 187.104,20 toneladas de mandioca produzida.
Embora grandes polos logísticos lidem com o volume total de colheita, é a microrregião de Uarini e do Médio Solimões que detém o maior valor agregado no produto final devido à técnica artesanal da farinha “ovinha”.
Para abrigar o famoso brigadeiro e suas demais criações, Jhonny Brito projetou uma estrutura ousada: uma autêntica Casa de Farinha dentro do Mercado de Origem da Amazônia. O espaço fica no icônico complexo do Booth Line — prédio histórico do Centro de Manaus que, após ser restaurado, se consolidou como um vibrante centro de economia criativa e resgate cultural. O ambiente foi desenhado para transportar o visitante aos cenários do interior. Detalhes como o forno de torra imponente e as peneiras artesanais materializam a identidade ribeirinha bem no meio do concreto da capital, permitindo ao público acompanhar, ao vivo, o preparo p erfumado do tradicional pé de moleque.
Mais do que um ponto comercial, o local funciona como um centro cultural de memórias afetivas. Ali, uma riqueza regional se desdobra em uma curadaria de artigos exclusivos: camisas estampadas com os jargões mais icônicos do linguajar caboclo, biojoias inspiradas na estética da mandioca, ecobags que carregam o orgulho pela iguaria sagrada e kits de presentes com farinhas premium.
No portfólio, as características do dente de mandioca surpreendem com oito sabores de farinhas temperadas e saborizadas, que incluem moléculas exóticas como pirarucu, castanha, alho, cebola, pimenta e maracujá. O grande destaque tecnológico fica por conta da versão com cúrcuma, desenvolvida sob medida para atender clientes com restrições alimentares, como os diabéticos. A inovação inclusiva nasceu de uma pesquisa científica submetida à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapean), que proporcionou um incentivo de R$ 58 mil para viabilizar o projeto e tirar a ideia do papel.
Da roça ao balcão: O elo familiar
Criado em uma comunidade onde a roça ficou a meros vinte metros do quintal de casa, o contato com o universo da mandioca começou cedo para Jhonny Brito.
Aos cinco anos de idade, ele já acompanhava a rotina da casa de farinha, trabalhando para ganhar o próprio dinheiro em jornadas cujas diárias, na época, era de cinco reais.
Foi nessa infância rústica que ele encontrou sua maior referência de qualidade: o cunhado, um farinheiro talentoso que o ensinou a enxergar o valor de um produto bem trabalhado.
Nesse mesmo período, Jhonny conheceu de perto o maior gargalo do setor primário no interior: a figura do atravessador.
“Ele compra sem valorizar quem realmente faz. Quer comprar por um preço baixo para render mais alto na capital, deixando o produtor desmotivado a continuar no campo”, relembra.
Essa realidade impulsionou uma mudança de cenário em 2015, quando Jhonny migrou para Manaus. Ele começou a vender pequenas porções de farinha para os colegas de uma sapataria onde almoçava, até estruturar, em 2019, sua formalização empresarial.
Ao consolidar três pontos de venda na capital, que geram emprego direto para sete pessoas, o empreendedor desenhou uma solução de mercado inovadora: eliminou por completo os intermediários e estruturou uma rede robusta de agricultura familiar. Hoje, a produção em Uarini é abastecida diretamente por seus 11 irmãos e demais parentes. Para dar o salto de subsistência para o mercado premium, a família contou com o suporte de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) para o manejo do solo e com a ajuda de um engenheiro de alimentos.
Essa engenharia social e técnica pesquisada em uma cadeia de comércio justa. A operação garante uma lucratividade média de 50% para ambas as pontas, sustentando os pontos comerciais na capital e impulsionando a economia da comunidade rural. Focada na máxima qualidade e não na quantidade, a rede familiar protegida o saber ancestral. Mesmo com o avanço da mecanização, o processo preserva o uso do remo de madeira para torrar o grão no forno, a peneira tecida em arumã e o escoamento no tipiti feito de jacitara — salvaguardando a identidade cabocla e provando que a dignidade do produtor é o melhor fermento para o desenvolvimento regional.
A CRÍTICA*