As hepatites virais, doenças que afetam o fígado e podem ter diferentes causas e formas de transmissão, continuam sendo um desafio de saúde pública no Brasil. Segundo o Painel de Hepatites Virais do Ministério da Saúde (MS), o país registrou 245.338 casos de hepatite C — a forma mais frequente da doença — entre 2012 e 2024. Somente no ano mais recente, foram contabilizados 19.343 casos, sem redução significativa em relação aos anos anteriores.
Diferentemente da maior parte do território nacional, onde a hepatite C predomina, a realidade epidemiológica no Norte apresenta uma particularidade importante. De acordo com o Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais 2025, do MS, a região concentra 72% dos casos de hepatite D registrados no país entre 2000 e 2024. Menos comum, essa forma da doença está associada à infecção pelo vírus da hepatite B e pode evoluir para quadros mais graves.
“Fatores geográficos, dificuldades de acesso aos serviços de saúde, desigualdades sociais e desafios relacionados à vacinação e ao diagnóstico contribuem para esse cenário na região Norte”, explica o infectologista e consultor médico do Sabin Diagnóstico e Saúde, Marcelo Cordeiro. Segundo ele, a hepatite B também apresenta maior frequência em algumas localidades da região quando comparada a outras áreas do país.
Diagnóstico e tratamento
Um dos principais obstáculos para o enfrentamento das hepatites virais é a dificuldade de identificar precocemente alguns tipos da doença. Enquanto a hepatite A costuma se manifestar como uma infecção aguda, as hepatites B, C e D podem permanecer silenciosas por anos, sendo muitas vezes descobertas apenas quando já existe algum comprometimento do fígado. Em alguns casos, podem surgir sinais como cansaço, febre, náuseas, dor abdominal e pele e olhos amarelados, urina escura e fezes claras.
Marcelo Cordeiro ressalta que esses sintomas, isoladamente, não confirmam o diagnóstico. “A confirmação das hepatites virais é realizada principalmente por meio de exames de sangue. Esses testes permitem identificar se a pessoa teve contato com o vírus, se está com infecção ativa e, em alguns casos, a quantidade de vírus circulando no organismo”, explica.
O tratamento varia conforme o tipo de hepatite. A hepatite A costuma apresentar recuperação espontânea, com indicação de repouso, hidratação e acompanhamento médico. Já a hepatite B pode exigir o uso de antivirais em casos crônicos, além de monitoramento contínuo para prevenir complicações hepáticas.
No caso da hepatite C, há tratamentos altamente eficazes com antivirais de ação direta, capazes de eliminar a infecção na maioria dos pacientes. A hepatite D, por sua vez, requer acompanhamento mais rigoroso por ocorrer associada à hepatite B. Já a hepatite E geralmente é autolimitada e demanda apenas cuidados de suporte, exceto em situações mais graves.
Prevenção
A prevenção continua sendo a principal estratégia para reduzir o impacto das hepatites virais. Um dos maiores avanços nessa área é a vacinação contra a hepatite B, que também protege contra a hepatite D.
Marcelo Cordeiro destaca que as medidas preventivas variam de acordo com cada tipo da doença. “A hepatite A está relacionada principalmente ao consumo de água e alimentos contaminados e pode ser prevenida com medidas de higiene, saneamento básico e vacinação. Já as hepatites B, C e D estão associadas ao contato com sangue e fluidos corporais. Nesses casos, a prevenção inclui vacinação contra hepatite B, uso de preservativos, não compartilhamento de objetos perfurocortantes e adoção de práticas seguras em procedimentos médicos e estéticos”, detalha.
Para o especialista, ampliar o acesso ao diagnóstico precoce e fortalecer as ações de prevenção são medidas fundamentais para reduzir a circulação dos vírus e evitar complicações graves associadas às hepatites virais.
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